A Cidade Portuária

Belém

Lugares simbólicos dos Descobrimentos e da epopeia marítima portuguesa, estes dois monumentos construídos nos inícios do século XVI, foram frequentemente utilizados pelos poderes para legitimar projectos e ideológicos, como aconteceu de forma muito intensa durante o Estado Novo. Se marcam o momento fundador de um encontro continuado dos portugueses com os africanos, estão igualmente ligados, pela natureza das relações estabelecidas, ao tráfico negreiro português e a escravização de milhares de africanos retirados à força, durante séculos, dos seus territórios de origem. Hoje, estes sítios de história e de memória tornaram-se espaços de um passado constantemente reinventado, integrados numa cultura turística da cidade, e associando conhecimento e lazer, sem ter perdido a sua dimensão de «facto» nacional.

O Porto de Lisboa

Lisboa estende-se ao longo do Rio Tejo, concentrando as múltiplas actividades ligadas à navegação, à pesca, ao comércio das mais diversas mercadorias, entre elas os escravos africanos importados desde finais do século XV. A zona, designada de Ribeira das Naus, organizava-se, ontem como hoje, em torno do Cais do Sodré, e incluía também os estaleiros de uma importante construção naval que marcou durante vários séculos a economia portuguesa. Lugar de marinheiros, de artesãos, de varinas, de trabalhadores diversos, de muitas origens e culturas, e também de manifestações lúdicas, o porto de Lisboa – expressão que hoje inclui uma extensa fachada que se estende entre o litoral ocidental e oriental da cidade – foi-se transformando ao longo dos séculos em função dos projectos políticos, adquirindo novas valências, perdendo outras, mas mantendo o essencial da sua relação com o rio e com a população lisboeta.

O Terreiro do Paço

Coração do poder nacional, a dimensão política da primeira designação que remete para a autoridade real, depois republicana, não esconde a sua vocação comercial que sempre acompanhou este espaço da cidade, apesar das múltiplas transformações urbanas, dependentes das conjunturas, mas também dos acidentes naturais como o grande terramoto que destruiu Lisboa em 1755. Local de sempre das decisões políticas, acolhendo hoje Ministérios diversos, foi e é o centro da organização e da gestão das actividades económicas – sítio da Alfândega quinhentista onde se integrava a Casa dos Escravos, que depois veio a ter lugar na Casa da Índia – , bem como das manifestações da violência religiosa, de que são exemplo os autos-de-fé da Inquisição que aqui se realizavam na presença de multidões em delírio.

Saindo do Terreiro do Paço pela antiga porta da Ribeira, em direcção à Sé Velha construída durante o século XII sobre a antiga mesquita muçulmana, entrava-se no Terreiro ( Largo) do Pelourinho Velho onde se vendiam escravos  « empilhados no meio do chão, formando um círculo, […] as cabeças no centro […] amarrados pelos pés», nas palavras de um viajante italiano, no último quartel de Quinhentos, que os compara a «uma vara de porcos que se afocinhassem na conquista de um lameiro, já pela acção, já pela côr […]».

O Terreiro do Paço nunca deixou de ser o grande espaço urbano dos encontros festivos – culturais, sociais, políticos, religiosos -, sem esquecer a sua vocação ribeirinha, que fez e faz dele ponto de intimidade com o rio, de partida e de chegada através dos circuitos fluviais de grande impacto turístico.

Os Cais da Cidade

A relação íntima da cidade com o rio, via líquida de ligação com o mar vizinho, quer dizer com o mundo, caracterizou-se pelo desenvolvimento das muitas actividades que emergem no quadro dos espaços urbanos marítimos. Os Cais são por isso lugares de trocas múltiplas, de circulação de mercadorias velhas e novas, de negócios mais ou menos lícitos, de gentes nunca vistas, de relações sociais inovadoras que carregam consigo ideias, conhecimentos, comportamentos, valores, que não podem deixar de ser agentes de mudança. As designações dos cais – do trigo, da madeira, da pedra, do sabão, do carvão, da cal – dão conta da importância económica da zona ribeirinha de Lisboa, com uma retaguarda de ruas, de lojas, de mercadores, também de palácios e de muitas igrejas, que não podia deixar de estar associada à mais importante estrutura de distribuição de águas da cidade, o Chafariz d’El Rei, lugar de festa, de trabalho, de vivências múltiplas, integradoras das muitas gentes lisboetas. Se os cais foram os espaços seculares da chegada de africanos, quase sempre escravos, representaram também o local da sua socialização na sociedade portuguesa.

  

O Chafariz d’El-Rey no século XVI, pintura de autor desconhecido, que se supõe datar de 1570-1580, e que se inscreve na linhagem da pintura da época, no Norte da Europa, centrada em cenas urbanas. Se a qualidade pictórica se releva algo medíocre, em contrapartida põe em evidência a flexibilidade da composição que permite proceder ao inventário das práticas lisboetas, inscritas num espaço limitado atrás pelas construções na velha Ribeira das Naus, sendo o primeiro plano consagrado às actividades marítimas. O quadro concentra uma multidão misturando vários grupos sociais, onde se destaca uma grande quantidade de africanos desempenhando as mais diversas tarefas, transportando água ou calhandras cheias de detritos, descarregando as embarcações acompanhando os senhores ou sendo levados bêbados para a cadeia. Mas algumas cenas são inusitadas e surpreendentes: um africano ao leme de uma pequena embarcação, enquanto o colega toca pandeireta para tornar mais doce a relação amorosa dos dois passageiros brancos; a figura de um escravo – na “pista de dança”, à esquerda- carregando uma bilha na cabeça e preso por uma corrente de ferro que liga o pescoço aos pés[] pormenor superior direito; um africano a cavalo com o hábito da Ordem de Santiago[pormenor inferior direito]; no baile, podemos ver um par dançante formado por um homem preto, aparentemente calçado, e uma mulher branca, descalça! Às janelas, as portuguesas contemplam o espectáculo, marcado pela música e pela dança. [Colecção Berardo, Fotografia:Júlio Marques].

O Chafariz d’El Rei, hoje sem água, permanece um lugar simbólico de Lisboa, revelando nas suas inscrições o complexo processo de distribuição das águas, que através de posturas municipais, como a de 1551, procedia à repartição das bicas, segundo a côr, o sexo e o  estatuto social das populações que aí se podiam abastecer [Fotografia: Ana Fantasia].

Hoje, os antigos cais e as zonas próximas do interior –tendo a Sé na sua esfera urbana –  registam uma multiplicidade de actividades onde permanecem as memórias do passado, como a Rua e o Arco de São João da Praça que nos levam à Praça e Igreja do mesmo nome, lugar de venda de escravos, e as dinâmicas urbanas reinventadas, como o pequeno comércio especializado, a produção artesanal em via de extinção,o frenesim dos mercados, os edifícios ligados à alfândega e aos movimentos de importação/exportação, traduzidos em particular nas toponímias: Jardim do Tabaco, Rua do Cais de Santarém, Novo Terreiro do Trigo. Mas sublinhe-se também o desenvolvimento dos circuitos urbanos e a ligação ferroviária e rodoviária com o interior do país agrícola e sobretudo a vertente inovadora das iniciativas de carácter cultural, que para além das festas populares,  evidencia a importância desta zona urbana no contexto da cultura lisboeta, como é o caso do novo fôlego atribuído hoje à quinhentista Casa dos Bicos [Fotografias: Ana Fantasia].  

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