Angola

Situada na região ocidental africana, a meio caminho entre a África Central e a Austral, Angola ocupa 1.246.700 km2, onde se sucedem vários espaços geo-morfológicos: a faixa litoral, uma zona de transição para o interior, a cadeia marginal de montanhas, o planalto central.

Dispõe de uma rede hidrográfica importante com destaque para as bacias do Kwanza, do Lukala, do Kwango, do Katumbela e do Kunene e de paisagens muito diversas: praias, florestas, savanas, deserto…. Com flora variada e uma fauna abundante e rara – a palanca negra ou o rinoceronte branco -, existem reservas naturais e parques de que se destaca o da Kisama, já reabilitado e acessível ao turismo.

O clima varia entre o tropical seco do litoral, o tropical húmido da maior parte do país, o temperado das zonas de altitude e o semi-árido do deserto. Duas estações, a época das chuvas, em que as temperaturas são mais elevadas, e a estação seca, ou cacimbo, de temperaturas amenas, definem o ritmo sazonal dos angolanos.

A população actual, na sua maioria de origem banta, é o resultado de uma história antiga e complexa.

Do ponto de vista da organização económica e social o antigo comércio africano a longa distância mostrou-se capaz de integrar as propostas provindas do alargamento e da banalização do comércio de escravos. O escravo transformou-se na mercadoria mais procurada pelos europeus, trocada por bens de prestígio, que incluíam as armas de fogo e a pólvora, assim como os tecidos, as bebidas alcoólicas, as missangas e as conchas cauri provenientes das Ilhas Maldivas, no oceano Índico.

Angola foi, dos fins do século XV a meados do XIX, um grande reservatório de mão-de-obra escrava para as Américas, e o Brasil em particular. A presença portuguesa na região limitava-se, todavia, aos portos ao norte e ao sul do Kwanza, às duas grandes feitorias do litoral, Luanda e Benguela, tal como aos fortes e presídios dos corredores de penetração do interior: Luanda – Kasanje, Luanda – vale do Kwanza e Benguela/ Catumbela – Caconda.

As vias fluviais possuem grande carga simbólica. Locais ancestrais da produção alimentar, de descanso e de culto, foram também utilizadas para levar os escravos acorrentados – com os famosos libambos -para o litoral, deixando os caminhos do mato para se lançar nos do grande Oceano, que se tornou, na mitologia local, o grande comedor de homens.

Nascido na região da “mãe das águas”, o Kwanza desempenha um papel fundamental na organização dos espaços angolanos, tendo participado na construção das relações entre os diferentes grupos sociais, assim como na estruturação do comércio de escravos interno e externo.

MAPA DE ANGOLA- Vale do Kwanza…….

Em toda esta região, os escravos criaram, para escapar à dominação dos negreiros, vários lugares de refúgio denominados   quilombos, mutolos e coutos.

Luanda tornou-se, a partir do momento em que os portugueses passaram da ilha de Luanda para terra firme (século XVI), o centro da sua presença na região, directamente associada à estruturação do comércio negreiro atlântico, em especial para o Brasil tendo-se tornado na cidade mítica dos afro-brasileiros. Lugar de chegada das caravanas vindas do interior, Luanda fazia refluir para esse interior mercadorias de todas as origens, que exerceram uma forte influência na contínua renovação dos valores culturais angolanos.

Em Angola multiplicam-se, um pouco por todo o lado, os lugares de memória da escravatura, porém, Luanda apresenta ainda hoje inúmeros sítios – construídos pelos negreiros ou inventados pelos escravos – que mostram a importância deste comércio secular na organização da cidade. Portos, alfândegas, fortes e fortalezas, igrejas e capelas, mercados e quitandas e feiras; casarões e palacetes, armazéns e quintalões, mas também objectos vários, monumentos vegetais, locais de refúgio, espaços rituais de resistência dos homens transformados em mercadoria, marcados a ferro e fogo como os animais, constituem a memória de uma cidade ligada durante séculos pelo tráfico negreiro.

Luanda não pode deixar de ser uma cidade mestiça, associando na sua arquitectura grandes construções como os sobrados – ocupados pelos membros de uma aristocracia local, mas também por grandes comerciantes e negreiros -, aos quintalões, espaços contíguos aos sobrados destinados ao armazenamento dos escravos.

Também as igrejas, lugares do culto católico, destinadas aos europeus e utilizadas para se oporem às práticas religiosas africanas – os escravos deviam ser baptizados antes de serem embarcados como mercadoria – são sítios de memória ligados à violência esclavagista.

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