A Cidade das Colinas

O Rossio

Ontem como hoje, o Rossio e o Largo de São Domingos são os lugares do encontro preferidos pelos africanos. Se o Rossio era, para todos – incluindo os africanos -,  o largo da feira onde tudo se comprava e se vendia, o local onde se podiam encontrar artesãos à espera de clientes, o espaço das muitas festas, das touradas, dos conflitos, das tabernas, do Hospital de Todos os Santos,  dos muitos espectáculos como os autos-da-fé da Inquisição, a Praça da Figueira, ao lado, acolhia forasteiros que aí encontravam grandes feiras especializadas onde era possível tocar as produções nacionais e as mercadorias importadas. Entre as duas praças, mas ligado ao Rossio, o Largo de São Domingos foi o lugar onde homens e mulheres de África puderam encontrar desde finais do século XV acolhimento e apoio que tornaram menos dura a sua integração na sociedade lisboeta. Inserida no Mosteiro de São Domingos, a igreja do mesmo nome abriu as suas portas à primeira confraria de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, que viria a transformar-se, em Portugal e no seu império, num lugar de devoção e de protecção social de escravos e não escravos africanos.

Hoje, os africanos continuam a fixar-se neste lugar, onde se cruzam línguas, religiões e culturas de África, permanecendo um espaço de religiosidade que os descendentes dos “feiticeiros” do passado continuam a percorrer, anunciando os seus poderes mágicos e  distribuindo “ cartões de visita”.

O Rossio e a Igreja de São Domingos. Situada no lado esquerdo de um desenho de Zuzarte (1757), integrado no mosteiro dos Dominicanos, a igreja de São Domingos desempenhou desde muito cedo, um papel central na protecção dos africanos lisboetas. Em 1508, D. Manuel à semelhança do que já acontecia com outras confrarias, concedeu “ à confraria dos pretos que se faz no mosteiro de S. Domingos” um pecúlio financeiro por cada caravela que viesse da Mina. As intervenções dos confrades africanos junto dos poderes públicos permitiram alcançar direitos tão importantes como o acesso ao estatuto de regateira da cidade para as africanas forras, ou como a inviolabilidade das habitações pelas autoridades policiais, em determinadas circunstâncias. A Imagem mostra, em primeiro plano, o imponente Hospital Real de Todos -os –Santos, destruído pelo terramoto de 1755, bem como as casas assentes sobre arcadas, respeitando as regras do mediterrâneo. Este dispositivo arquitectónico, que permitia o ensombramento e evitava a chuva, era importante num espaço público, cenário das celebrações litúrgicas e das festividades mais relevantes da cidade ao longo de séculos.[col. Particular, Fotografia: Júlio Marque]

 O Lugar do Encontro em Lisboa. O Largo e a igreja de São Domingos, na sua relação com o Rossio, mantém-se, hoje como ontem, o território escolhido pelos africanos para se concentrarem, qualquer que seja o sexo, a idade, a origem, a religião, a profissão. Se a memória da importância religiosa e social deste lugar na vida dos africanos –escravos e forros – se perdeu certamente, podemos contudo aceitar que o sítio constitui um símbolo dessa presença secular, transmitido de geração em geração. Registe-se, aliás, a maneira como os africanos se apropriaram de uma parte do Rossio, colada praticamente ao Mosteiro de São Domingos, utilizando esse espaço como lugar de confraternização entre os vários segmentos “nacionais” que constituíam e constituem o núcleo africano em Lisboa, sob a protecção da autoridade religiosa. A ligação à Praça da Figueira e ao Largo do Martim Moniz marca a importância comercial destes lugares que se foram especializando numa oferta “africanizada” que se estende dos produtos alimentares aos mais diferentes bens de consumo dos livros e revistas aos produtos de beleza e ao vestuário.[ Fotografias de Júlio Marques e Ana Fantasia].

Mouraria, Graça Alfama: Práticas Sociais e Religiosas

Pormenor de Carta Inglesa da Society of Diffusion of Useful Knowledge, de 1844, onde é possível ver a articulação entre a Mouraria, a colina onde se encarrapita o Mosteiro da Graça,,o casario de Alfama,  o Tejo e a outra banda.

Seguindo para oriente, em direcção à colina da Graça, cruzando a Mouraria e descendo para Alfama, velhos bairros dos mouros medievais, os caminhos labirínticos percorrem lugares marcados pelas presenças seculares de africanos, que por ali viviam, por vezes em casa própria, desempenhavam tarefas comerciais, artesanais e vendiam os seus serviços também para a limpeza e o abastecimento da cidade.

Marinheiro tocando guitarra. Fardado de marinheiro, este homem mestiço toca uma guitarra portuguesa, função muito estimada pela sociedade portuguesa de ontem e de hoje. Parece terem sido os africanos que introduziram nos meios aristocráticos o gosto pelo fado, tendo a Mouraria concentrado todas as categorias sociais amantes desta canção nacional.Os bairros populares da cidade procuraram manter sempre viva esta tradição portuguesa, que hoje tem direito a museu, em Alfama, e é património da Humanidade. [Desenho aguarelado de Maia, Typos e Trajos de Lisboa, 1845.Fotografia: Júlio Marques].

A Igreja setecentista da Graça, situada no Mosteiro do mesmo nome, foi e é lugar de Nossa Senhora do Rosário, ladeada, como em muitos outros altares que lhe são dedicados em Portugal e no Brasil, por quatro santos negros que sublinham simbolicamente uma relação preferencial da Santa com as populações africanas, visível nas festividades e procissões consagradas a Nossa Senhora do Rosário que se realizavam em particular nos velhos bairros da cidade. Eram eventos sempre muito concorridos por africanos, membros ou não das confrarias, como foi caso de uma importante festa do Rosário que teve lugar no dia 1 de outubro de 1730, no adro da igreja do Convento do Salvador, situado no contexto urbano onde se encontram os três  velhos bairros lisboetas da Graça, do Castelo  e de Alfama: aparato musical, peditórios e danças, muitos africanos de origens diferentes, “ de Angola”, “ do Congo” e “da Mina”, marcaram a cerimónia religiosa, também social e fortemente ligada às diversas culturas e memórias de identidades longínquas.

A igreja da Graça, o altar da Irmandade do Rosário dos Pretos e os Santos Negros integrados nesta igreja setecentista de Lisboa.. O comportamento do clero católico foi frequentemente paradoxal: por um lado apoiou, para manter os africanos longe das instituições religiosas dos brancos e evitar os conflitos provocados por estes últimos, a Confraria de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos; por outro lado, aprovou a existência de capelas onde santos negros tomavam lugar, velando pela Santa. Trata-se de Santo António de Noto e São Benedito de Palermo, ambos santos sicilianos descendentes de escravos, venerados desde meados do século XVI, o seu culto tendo- se instalado em Portugal no início do século XVII. Os outros dois santos são Santo Elesbão (século VI) e Santa Ifigénia (século I), santos oriundos da Etiópia, conhecidos e venerados em particular na Andaluzia, de onde o seu culto terá sido introduzido em Portugal, na primeira metade do século XVIII. [ Fotografias: Júlio Marques.]

O Mosteiro, a Igreja e o Miradouro da Graça. Ao longe a colina do Castelo de São Jorge , mais abaixo Alfama que se estende até ao rio.  

O Campo de Sant’Ana e a Rua das Pretas. Subindo ao Chiado

Subindo para o interior em direcção ao centro da cidade, mais uma colina que a história regista como lugar de memória dos africanos lisboetas: o Campo de Sant’Ana, hoje Campo dos Mártires da Pátria, que serviu de matadouro de Lisboa no século XVI, mas foi sobretudo como lugar de distribuição de águas – o chafariz de Sant’Ana – nos finais do século XVIII que atraiu mulheres africanas, que desempenharam , durante séculos essa tarefa indispensável à vida urbana. A Rua das Pretas ali ao lado regista essa presença secular, já que o lugar nunca deixou de ser utilizado como espaço de trocas e de negócios, e também de festas, as africanas forras usando as suas casas como estalagens para os muitos forasteiros que por ali circulavam.

No século XIX, o Campo de Sant’Ana foi também lugar de espectáculos de touradas, que sempre suscitaram a adesão dos africanos. Hoje desaparecida, a praça de touros do Campo de Santana, inaugurada em 1831, era um espaço pequeno, quase toda de madeira, sem o tipo clássico dos redondéis hispano.-árabes, um arena “brinco de touros”, onde tourearam muitos africanos, entre eles o Pai Paulino, um dos grandes animadores desta praça de touros, figura carismática da Lisboa Oitocentista, que pertenceu a várias confrarias, todas empenhadas em defender os direitos dos africanos. Como acontecia com os membros do seu grupo, foi enterrado numa vala do cemitério do Alto de São João, mantendo-se a tradição que excluía os africanos das formas normais de enterro, modo de proceder que já se registava no século XVI.

O Campo de Sant’Ana, a Praça de Touros e o Busto de Faiança do Pai Paulino . A fotografia mostra, ao fundo e à esquerda, a figura escura e arredondada da Praça de Touros. [AF-CML].O Busto, da autoria de Rafael Bordalo Pinheiro (1894), representa o Pai Paulino que, para além de combatente liberal condecorado, foi sobretudo uma figura típica de Lisboa, tendo servido de árbitro nos conflitos em que estavam envolvidos africanos. Caiador de profissão, no Rossio, também foi gaiteiro na procissão do Corpo de Cristo, tendo participado nas lides tauromáquicas do Campo de Sant’Ana, muito apreciadas e publicitadas entre os lisboetas [ MBP-CML]

Já no final do século, o Campo de Santana, hoje Campo dos Mártires da Pátria,  viria a consagrar-se como local de devoção e de homenagem ao médico português, mestiço, Sousa Martins, a quem o rei D. Carlos chamou «a mais brilhante luz do meu reinado» , aquando da sua morte em 1897. Se hoje o local da antiga praça de touros é ocupado pela Faculdade de Ciências Médicas, o centro do Campo de Sant’Ana, ajardinado, é ocupado pela estátua de Sousa Martins, que continua a ser lugar de peregrinação de muitos portugueses de variadas origens.

Sousa Martins, figura de renome na sociedade portuguesa,, lente a partir de 1872, professor da Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, este mestiço, nascido em Alhandra, alcançou reputação de curador de feridas, tanto as psíquicas como as físicas, o que deu origem a rituais levados a cabo por muitos lisboetas “de todas as cores”, destinados a pedir-lhe ou agradecer-lhe a cura para os seus males. A diversidade de objectos que são, ainda hoje, diariamente colocados aos pés da estátua, entre os quais vasos de flores, traduzem, em pleno centro de Lisboa, uma  singular religiosidade dos portugueses, que o consideram um taumaturgo.[Fotografias: Júlio Marques].

Descendo a Rua das Pretas, subindo a São Pedro de Alcântara, a Igreja de São Roque marca o caminho para o Chiado, o Bairro Alto e a Lisboa ocidental [Fotografias: Júlio Marques e Ana Fantasia]

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