Rota do Caribe

por 
souindoulasimao@yahoo.fr
20 de September de 2010 (fonte)

caribe A rota caribenha da escravaturaÉ um dos maiores e poucos conhecidos factos históricos confirmados pela obra colectiva “Presencia africana en el Caribe” , livro editado sob a coordenação da africanista mexicana Luz Maria Martinez Montiel pelo Conselho Nacional pela Cultura e Artes da Republica Federal, na sua didática coleção “Chaves da América Latina. A nossa Terceira Raiz “.

Selado num consistente volume de 652 paginas, a compilação de San Angel articula-se numa dezena de capítulos nas quais os autores-contribuidores analisam, sob uma abordagem, preferencialmente, insular, a barulhenta instalação dos melano-africanos em Cuba, a profunda influência dos cultos congos na grande ilha, a evolução dos niger na República Dominicana, esta parte oriental da histórica Espanola, o enraizamento africano em Porto Rico , a particular bi-nacion, a estampilhagem civilizacional negra desaferolhados na espiritual Jamaica, a definitiva adaptação da mão de obra negra nas cinco ilhas holandesas das Caraíbas, Curacao, Bonaire e aparentadas; as, tornadas, afro-guianeses e a acomodação histórica dos afro-surinamenses.

Nota, ai, com muito interesse, a síntese de Joel James Figarola comparando a natureza dos laços linguísticos e antropológicos que se estabeleceram entre Cuba e Haiti.

Reencontra-se, ai, dentro dos especialistas que propuseram as suas analises a esta obra, o meu excelente colega, cubano, membro do novo Comité Cientifico Internacional do Projecto da UNESCO “ A Rota do Escravo “ , Miguel Barnet e a claridente Lydia Milagros Gonzales de Porto Rico.

Na sua introdução a obra, Maria Montiel recorda, bem a propósito, que é a experiência humana e agrícola da exploração da preciosa cana de açúcar em São Tomé , que foi aplicada no “além-Atlântico das plantações”.

Com efeito, arquipélago descoberto, inabitado, e lutando com um sub-povoamento crônico, este fornecera no novo continente e no conjunto insular, contingentes de cativos vindos, majoritariamente, do vizinho e parceiro Reino do Kongo e do litoral enclave português de Angola.

São eles que provocaram, segundo a antropóloga mexicana, vários processos de estampilhagem civilizacional bantu no conjunto insular tais como a emergência dos famosos cultos sincréticos congocubanos ou palo mayombé, animados em Cuba, pelos os mojigangas e em Porto Rico pelas sectas mialas.

Perpetuou, nas ilhas tropicais do Novo Mundo, o consumo da malanga (iniame) e do quimbombo (banana pão).

Epicurianos produziram a musica popular de grande ilha, como os seus ritmos e danças lascivos, a rumba, a conga, a bembé e a calenda.

Punções exutórias


Retomaram, nas Guianas, os seus tambores do Congo e de Angola.  Esses rebeldes, vindos da Colônia de Angola ou embarcados da emborcadura do Congo conservaram os seus antropônimos, tais como Lemba, na Republica Dominicana.

Rafael Duharte Jimenez indica, na sua vigorosa síntese intitulada “África em Cuba”, a instalação em Havana, logo no século XVI, de Engolias, Embo, Congo, Casanga, Mozambique e Sao Tomé. Esses perpetuaram os nkise (feitiços), no quadro das crenças mayombé, bem manipulados pelos inevitáveis ngangas.

Retomando o léxico residual de origem africana proposto pelo Sergio Valdés Bernal, o contribuinte cita, entre outros elementos, para as palavras de filiação, visivelmente bantu, mambi, de mbi (assustador), bembé de bembo (lábios), gandul de wandu (ervilhas), mambo de mambu (diferendo), marimba (xilofone) et tango de tanga (cantar).

Jimenez nota, dentro dos numerosos factos sintomáticos da influência bantu na “Gran Plantacion”, a titularização de filmes cubanos sobre a escravatura; uma dessas produções sobre esse tema é Maluala (O Ofendido).

Na sua notável contribuição, bem intitulada, “A cultura generada pelo açúcar”, o tenaz Miguel Barnet confirma que uma das zonas de proveniência de cativos introduzidos, clandestinamente, depois de 1873, ano de registo oficial, da chegada do ultimo navio negreiro num porto cubano, foi, numa grande escala, “las regiones del Congo”.

Para ele, as terras kongo foram “una de las zonas mas devastadas “pelas punçoes exutorias esclavagistas em direção ao setentrion antilhano”.

Isso provocara, naturalmente, a retenção de etnonimos tais como Mayombé, Loango, Musundi, Ngola, Benguela e Kabinde ou cultos tais como os ligados aos kimbisa, espíritos, a devoção ao Nsambi ou Sambiampungo, a veneração do Ntangu, o Sol e da Mama Nkengue, Divinidade andrógena, a crença aos endocui ao kandiempembé, o endoqui malo, a gestão dos munansos lugares de cultos e a fabricação dos kinfuiti, ngoma; matoko e matuka, tambores, a utilização, de mpaka meso e o respeito pela jupeteriana ensasi.

Notar-se-a, na grande ilha, a perpetuação antropológica das convicções bantu sobre a força divina injetando o vital sangue menga e acordando a inteligência pelo nkuto, a orelha.

E a instalação, massiva, da mão de obra vinda do “Pais da pantera” que explicara a multiplicação, durante o período colonial, dos Cabildos congos ou Congos Reales. Esses foram muito activos nas actuais províncias de Las Villas e Matanzas assim como na região de Colon.

A famosa Sagua la Grande , em Las Villas , é a praça forte dos Eshicongos, que eles consideram como o seu kunalungo ou kunalumbu, do bantu, nlumbu, território. Tentou-se, ai, convencer Barnet, que o Congo Reale desta localidade era o “ Congo dia Ntotila de verdad”.

Cristalização sinônimica


O membro, reconduzido, da instância da UNESCO retoma, bem à proposito, a sua compatriota Lydia Cabrera, que notou uma informação datada de 28 de Janeiro de 17 99, sobre a organização, na periferia da Havana, de barulhentas festas pelas naciones congos. Essas eram animadas, por, nomeadamente, os Basongo, os Mumboma, os Mundamba e os Mayaka.

A significativa e continua presença congo no território adjacente o Golfe do México provocara a cristalização sinonímica com o termo negro.

Com efeito, a designação metonímica vinda da contra costa , de África central, se aplicara, em verdadeiro genérico, a diversos elementos da vida social cubana. Tudo tornar-se congo.

Qualificam-se as outras comunidades bantu, aparentados, deste predicativo. Avalia-se uma trintena de atribuições, dentre dos quais congo ngola, congo muluanda, congo kisiamo, congo babundo, congo mbangala, congo kisenga, congo ambaka, congo motembo e congo makua.

O kisomba kia ngongo, visivelmente, kimbundu, torna-se fiesta de congos.

Examinando a presença niger na República Dominicana, Carlos Andujar Persinal identifica, como uma das principais proveniências de bozales, a África central, cujo activo núcleo escravagista é constituído, essencialmente, do sólido bloco Congo/Angola, e do seu corolário humano, Sao Tomé.

O contribuinte de Santo Domingo apresenta detalhes sobre esta proveniência baseando-se em estatísticas históricas e diversos elementos de natureza metonímica.

Nota, entre 1547 e 1821, a chegada em Espanola, de grupos de cativos bantu de etnias congo ngola, congo muluanda, congo kisiamo, congo babundo, congo mbangala, congo kisenga, congo ambaka, congo motembo e congo makua.

Assinala, entre outros factos históricos sintomáticos do significativo povoamento bantu neste território ilhéu banhado pelo Mar das Caraíbas, a morte, em 1547, do líder cimarron, bem nomeado, Sebastian Lemba e o aprisionamento, em 1796, apos a corajosa insurreição de Boca de Nigua , de vários incitadores de origem congo e mundongo.

Ilustrando a forte influência do incontornável agregado Congo/Angola, no cristão Santo Domingo, Persinal põe em relevo a gamba, o arco musical, a marimba, o xilofone, e os tambores congo-atabales.

O exame do mapa toponímico do Oriente da Espanola permitiu ao antigo investigador do dinâmico Museu do Homem Dominicano de reencontrar as designações Angola, no sul da metade da ilha; El Congo, em diversas regiões do pais Fula e Lemba.

Os afro-dominicanos conservaram, igualmente, como os seus irmãos da “Gran Plantacion” , ao nível do corpo humano, centro de preservação linguística, por excelência, o termo bantu “bemba” para lábios.

A aplicada Lydia Milagros Gonzalez encarregou-se, naturalmente, do seu pais, que, segundo ela, registou um povoamento, maioritariamente, bantu. Afirma, a este respeito, que” haber sido el grupo de mayor influencia en Porto Rico”.

É, de reter, dentre dos bantuísmos que a investigadora de San Juan cita, termos que se cristalizaram na “Habla ganga” ou “Espagnol Popular Porto-Riquenho”, o tambor bomba ou ngoma e a macanda, feitiço.

O capitulo consagrado à presença africana nas Antilhas Holandesas é assinado pela Rosa Mary Allen.

Mono-importação
Propõe como primeira marca de identidade histórica do grupo ilhéu, o crioulo guéné, hoje extinto.

Esta língua resuma bem a história da expansão, deportação de escravos e colonização holandesas em África, nas Américas e Caraíbas.

Constituindo uma das potências marítimas e financeiras, mercantilistas, dentre das mais activas da Europa, no século XVII, as Províncias Unidas, grandes rivais dos gêmeos ibéricos, com a seu eficiente instrumento de negócios e colonização, a celebre Companhia das Índias Ocidentais, ocupara, a partir de 1629, e isso, durante uma vintena de anos, a estratégica Pernambuco – incluindo Alagoas -, e outras regiões da imensa colônia portuguesa do Brasil, grande consumidora de congos, ngolas e mozambiques.

Com efeito, as tropas holandesas controlaram Itamaraca, Paraíba e Rio Grande do Norte. Fala-se, então, de um Brasil holandês!

É, neste subcontinente, que a “Companhia” vá gerir, pela primeira vez, um grande número de melano-africanos. Com efeito, em 1630, a Capitania de Pernambuco recenseou, ai, mais de 48 000 trabalhadores negros !

A Holanda continuara a ocupar, paralelamente, territórios no continente, nomeadamente, em Tobago e no Suriname e as suas seis ilhas nas Caraíbas.

Expansionista, Amsterdao ousara ocupar, sobre a costa ocidental de África, entre outros centros esclavagistas, Sao Tomé, e sobretudo, de 1640 a 1648, a preciosa Sao Paulo de Loanda.

Com efeito, esta cidade é uma boa posição, porque a viagem entre “As Portas do Mar” holandesas e as costas brasileiras era menos demorada.

E, estima-se, durante os sete anos que ela ocupou o principal centro da Colônia de Angola, a Holanda transportou mais de 12 mil cativos ngolas, mundongos, matambas e congos.

Preocupado pela mono-importação negreira, o “Hof van Politie” de Pernambuco comunicara, no dia 26 de Julho de 1630, a Companhia das Índias Ocidentais, que um navio acabava de acostar, mas , com unicamente, “carne humana negra”.

E, este posicionamento geoestratégico que permitira, para o essencial, aos negreiros holandeses, introduzir importantes contingentes de “negros de agua salada” nas suas possessões nas Antilhas, diretamente, portanto, da contra costa ou via o Brasil.

Avalia-se que a Holanda transportou, além Atlântico, mais de 10% de mélano-africanos. Uma das suas regiões de abastecimento, em madeira de ébano, foi a Loango Coast/Angola.

Este aprovisionamento se refletiu, naturalmente, em Curacao.

E assim que o livro de baptismos, datado de 1755, da Iglesa (igreja) de Santa Ana, contém interessantes indicações sobre as origens étnicas ou os antropônimos de mães de crianças recipiendarias. Com efeito, reencontram-se, ai, menções tais como congo, canga, jamba, loango, angora, macamba ou macambi.

Esta ascendência será, igualmente, atestada em certas expressões, muitas das vezes depreciativas, do papiamento, o crioulo da ilha.

Mary Allen utilizou, a este respeito, entre outras fontes, a obra do Padre Brennenker “ Sambumbu, Volkskunde van Curacao …” e propõe uma dezena de cantos em crioulo.

Assim, este falar fixou, definitivamente, a sentença

-“Basti manera un loango” (Vestir roupa de cores brilhantes);

-a comparação papia luango, ( falar a toa);

– e o ditado « E ku bo wela luango a sina bo awe, di mi criojo a sinami kaba », (o que o teu antepassado luango ensinou-lhe, o meu avô crioulo o ensinou também).

Reencontrada e utilizada pelos os Loango, a planta anti-diaréica Stamodia marítima, é designada, no falar corrente, puta luango.

Os topônimos kanga e mundongo indicam bem laços os laços históricos com os antigos Kongo e Ndongo.

Inspirar-se-á do kimbundu, guéné, para eponimizaçao do antigo idioma crioulizado da ilha.

Este termo se tornara genérico e será aplicado a diversos aspectos da vida social, kantika di guéné significando cantigas cantadas em crioulo, kantika de makamba, cantos de amizade e o inevitável galina guéné, o galo local, suposto proteger as casas contra o mau espirito, o mal airu.

Notar-se-á que um dos alimentos de base dos ilhéus é o funche, a base de farinha de milho.

O capitulo sobre Surinam niger é proposto por Wim Hoobergen e reencontra-se, ai, como uma das principais regiões de origem dos afro-surinamenses, o Loango/Angola.

Um dos factos que confirma a forte presença dos Bantu no Suriname é a famosa gravura “Família loango” inserida na obra de John G. Stedman, publicada em 1796.

Terra de intermináveis insurreições, as anais conservaram nomes de alguns lideres tais como Pambu, Musinga, Makamaka e Sambo.

Obra bem útil, “Presencia africana en el Caribe” permite de dispor num só volume, o quadro da evolução histórica, da cristalização dos crioulos e as perpetuações antropológicas africanas no conjunto insular.

Permite, igualmente, apreciar as similitudes desta trama, sobretudo na sua declinação bantu, que constitui, incontestavelmente, uma das bases da identidade histórica caribenha e um dos fundamentos que facilitou a transversalidade cultural registada nesta região insular.

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