São Tomé e Principe

O achamento do arquipélago de São Tomé e Príncipe, no Golfo da Guiné, situa-se em 1471-72 no quadro das viagens portuguesas de reconhecimento da costa ocidental africana. A ilha de São Tomé, cuja extremidade sul se localiza sobre o Equador mede 52 km de comprimento e 34 km de largura tendo uma área de 929 km2. A ilha do Príncipe, situada a 135 km a norte de São Tomé, distando 200 km da costa africana, apresenta uma superfície de 114 km2.

De formação vulcânica, como todas as ilhas desta região atlântica, o arquipélago apresenta um relevo acidentado, caracterizado pela presença de picos, o mais importante dos quais de 2.142 metros de altitude, se encontra na ilha de São Tomé.

Desabitadas aquando da chegada dos Portugueses, as ilhas – de clima equatorial – caracterizam-se por uma importante rede hidrográfica, as “águas”, e por vegetação densa e variada.

Fiéis à sua estratégia de colonizar e tornar rendíveis os novos espaços, os portugueses e os europeus a eles associados, procuram desde o início organizar a exploração do arquipélago. Tal projecto impôs a criação não só de uma população, mas também de uma sociedade. A sua complexa história ficou marcada pela importação de africanos livres e, em particular, de escravos e de plantas capazes de assegurar o funcionamento de estruturas económicas geradoras de lucros: a cana-de-açúcar do século XVI dá lugar, nos séculos XVII e XVIII, a um intenso comércio negreiro substituído no século XIX pelas plantações de café e de cacau, que garantem a riqueza dos colonos portugueses instalados no arquipélago até meados do século XX.

O arquipélago de São Tomé e Príncipe tal como a ilha de Santiago de Cabo Verde, fornece o modelo da criação de sociedades fruto da imaginação, da energia e da associação entre Africanos e Portugueses.

O “Engenho” designa um conjunto complexo constituído pelas várias construções organizadas em torno de um moinho de açúcar e destinadas às diferentes fases da produção, pelas habitações do proprietário, dos mestres do açúcar e de outro pessoal técnico ligado ao sistema produtivo, pelas casas dos escravos rodeadas por pequenas hortas e situadas na orla da floresta e, ainda, pelas plantações da cana-de-açúcar.

A cultura da cana sacarina e a produção do açúcar constituíram a primeira forma de exploração económica do arquipélago. Em meados do século XVI, o número de “engenhos” aumentara vertiginosamente e o açúcar do arquipélago, de São Tomé em particular, bem cotado nos mercados europeus para onde era exportado atraía numerosos comerciantes e capitais europeus.

No entanto, a humidade do arquipélago contrariou estas operações produtivas, vítimas igualmente das revoltas dos escravos africanos que,  instalando-se no quase inacessível interior das ilhas – graças à densidade da vegetação – asseguraram o seu processo de africanização. Perante isto os colonos preferiram partir e instalar-se no Brasil.

Daí decorreu o vazio populacional e de capitais no arquipélago: este torna-se, então, uma plataforma indispensável à matalotagem dos navios em trânsito, e, também num local seguro – um armazém – para concentrar e guardar escravos vindos do continente africano e destinados às Américas.

São Tomé e Príncipe foi, durante séculos, um entreposto de escravos. A alteração definitiva desta condição é uma consequência das novas técnicas agrícolas desenvolvidas no Brasil: a importação de café e de cacau permitiram, nos inícios do século XIX a revitalização da economia, obrigando à importação de escravos ou de trabalhadores “livres” transportados de Angola e chamados serviçais, bem como à reorganização da propriedade fundiária.

Multiplicam-se as roças: estas são  grandes plantações de monoculturas industriais de onde os trabalhadores não podem sair sem uma declaração escrita de um contramestre, cuja estrutura geral não deixa de invocar os engenhos e os seus escravos do século XVI.

São, por isso, muitos os lugares de memória da escravatura e do comércio negreiro. Monumentos, construções, árvores, lendas, crenças, mitos, formas religiosas, mas sobretudo – pelo seu carácter original – as representações teatrais, frequentemente apresentadas nos “quintés”, como o Tchiloli, que desde o  século XVI  põem em evidência as relações de força que caracterizavam a sociedade esclavagista do arquipélago.

Com o desenvolvimento das roças, o arquipélago torna-se, pela segunda vez na história do arquipélago,  uma fonte de enriquecimento tão rápida quanto excepcional. Com uma diferença: a população local, os “filhos da terra” expulsos das suas terras pelas roças decidiram recusar-se a trabalhar para os proprietários brancos, obrigando estes, com o apoio do Estado colonial, à importação maciça de trabalhadores. Encontramos aqui os dois ingredientes fundamentais da situação moderna do arquipélago: culturas extremamente rendíveis, mas exigindo uma força de trabalho que era necessário importar.

Tal situação conduziu à reorganização da escravatura, qualquer que tenha sido a etiqueta utilizada pelos proprietários e pelas autoridades portuguesas. A força de trabalho foi, durante os séculos XIX e XX, recrutada em Angola, em Moçambique e, também, em Cabo Verde.  Apenas a Guiné-Bissau consegue reduzir o contingente de trabalhadores fornecidos aos roceiros.

A distribuição da terra põe em evidência a extrema “branquização” do território, ficando os africanos confinados a pequenas propriedades, os “quintés”, conhecidas de forma pejorativa como “roças de forros”. Tal situação conduziu a numerosas revoltas, duramente reprimidas pelo poder colonial.

As cidades do arquipélago – São Tomé e Santo António do Príncipe -, lugares construídos e controlados pelos europeus, são espaços onde se acumulam as memórias de uma História marcada, ao longo dos séculos, pela escravatura legal ou dissimulada. Portos, alfândegas, fortalezas e fortins, igrejas, edifícios de natureza diversa, multiplicam-se bem como os sítios onde os “filhos da terra” ou os escravos africanos organizaram a sua resistência linguística, religiosa, social, indispensável à manutenção da sua identidade e da sua humanidade.

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