Moçambique

Situado na costa sul-oriental de África, Moçambique, cujas fronteiras actuais começam a ser definidas nos finais do século XIX, possui uma área de cerca  de 780.000 km2 que se estende ao longo do Oceano Índico, desde a foz do rio Rovuma até Monte Ouro.

Com um clima tropical, mais quente e húmido nas regiões do norte, o país caracteriza-se por uma grande variedade de paisagens.

A posição geográfica do país condicionou o cruzamento das culturas e dos interesses dos povos africanos do interior com os Árabes, os Indianos, os Europeus, e, de muitos outros que sulcaram o Índico.

A expansão árabe/islâmica na costa oriental de África e nas ilhas próximas propiciou a criação de feitorias comerciais de Zanzibar até à região de Sofala, destinadas a organizar o comércio do ouro proveniente do interior. O comércio de escravos e a sua exportação para o Oriente era já um fenómeno antigo que tinha levado à criação de redes comerciais internas polarizadas no litoral.

Nos fins do século XVI os portugueses, instalados na ilha de Moçambique onde recebiam mercadorias vindas da Índia e coordenavam o movimento marítimo e comercial, visitam e comerciam com regularidade nos portos do sul, em particular Inhambane.

Mas, é o Vale do Zambeze com as vilas de Sena e de Tete que constitui a região mais procurada pelos portugueses, onde desenvolviam um comércio activo – que, de forma crescente, se foi centrando no escravo – servido pelo porto de Quelimane.

Os Portugueses criam, no século XVII, no Vale do Zambeze, uma forma inédita de propriedade fundiária, os prazos, que tinha como objectivo a ocupação, utilização e exploração das terras africanas. Situadas quase sempre nas proximidades de cursos de água – vias naturais de exportação para o litoral -, estas instalações que se consagravam a uma agricultura industrial, utilizando mão-de-obra escrava africana, constituem até ao início do século XX espaços organizados, fortemente mestiçados. Os prazeiros oitocentistas aliados aos traficantes brasileiros e franceses instalados em Quelimane tornam-se também activos exportadores de escravos, muitas vezes vendendo tanto homens livres como escravos que trabalhavam nos seus prazos.

No século XVII, na costa norte de Moçambique, de Moma às ilhas Quirimbas, sob forte influência árabe consubstanciada nas mesquitas, continuava a praticar-se o comércio de escravos controlado pelos chefes muçulmanos. A partir do século seguinte assiste-se à multiplicação de entrepostos esclavagistas árabes e europeus, onde se traficavam escravos para as plantações francesas de cana-de-açúcar e de café das ilhas Mascarenhas e também para o Brasil, Cuba, e a América do Norte. Esta exportação crescente era alimentada pelas redes internas esclavagistas as quais permanecem, ainda hoje, mal conhecidas.

Quelimane, Angoche, Inhambane, ilha do Ibo e as ilhas Quirimbas eram, no século XVIII, os principais portos exportadores de escravos, trocados por alimentos, armas de fogo, pólvora e patacas espanholas.

Até às primeiras décadas do século XX o comércio clandestino de escravos manteve grande dinamismo e as formas encapotadas – serviçais para São Tomé, trabalhadores “contratados ” para as plantações francesas do Índico ou, para as minas da Rodésia e da África do Sul – multiplicaram-se dando um novo fôlego à violência e à exploração dos homens.

Os lugares de memória de todo este longo processo esclavagista são visíveis e permanecem na história das populações.

A ilha de Moçambique, hoje património da humanidade, situada a 4 km do litoral, ofereceu sempre uma instalação eficaz aos grupos que procuraram drenar as ricas produções do continente – ouro, marfim, escravos – em troca de mercadorias vindas do exterior.

No caso português, para assegurar o poder militar e simbólico edificavam-se fortalezas e igrejas, como se o facto religioso fosse indispensável à manipulação comercial dos homens.

A Ilha, centro da administração portuguesa na região, entre os séculos XVII e XX, foi dividida em duas zonas: a cidade de pedra e cal e a cidade dos africanos, cidade de terra – “macuti”. Em ambas, mas, sobretudo na cidade de pedra e cal onde comerciantes europeus, baneanes e árabes mantinham os seus palacetes, os seus escravos e os seus negócios, encontram-se lugares de memória – fortalezas, igrejas, armazéns de escravos, locais de refúgio e de revolta, casas de negreiros – que, de forma directa ou indirecta, tangível ou intangível, na tradição oral ou nos documentos escritos, não permitem esquecer nem ignorar a violência da escravatura e do tráfico negreiro em Moçambique.

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