Cabo Verde

O arquipélago de Cabo Verde situado na zona tropical do Atlântico Norte, é constituído por dez ilhas e alguns ilhéus de origem vulcânica. Tem uma superfície de 4.033 km2 e encontra-se a cerca de 450-500 km da costa senegalesa, precisamente do Cabo Verde que lhe deu o nome.

Pela sua posição geográfica, no extremo ocidental da região do Sahel, caracteriza-se por um clima árido e semi-árido, marcado por períodos de seca extrema, que deram origem àquilo que se continua a chamar as “crises”, isto é, as fomes cíclicas que, em certos casos, condenaram à morte cerca de 50% da população e levaram muitos cabo verdeanos, desde o século XIX, a procurar na emigração as soluções de sobrevivência.

Tal como se verifica em outras ilhas do oceano Atlântico, o arquipélago de Cabo Verde era desabitado, razão que levou os portugueses – quando o descobriram, em 1460 – com a ajuda de outros europeus, mas, sobretudo, de africanos, a organizar as condições da sua rendibilidade que, naturalmente, impunham, em primeiro lugar, a criação de uma sociedade.

O interesse dos colonos portugueses centrou-se na ilha de Santiago, onde introduziram plantas, da cana-de-açúcar à bananeira, contribuição reforçada pelos escravos que trouxeram consigo, de África, plantas, instrumentos agrícolas e técnicas culinárias: saliente-se o caso do “cuzcuz”, que revela as relações com o Islão, e a invenção dos cuzcuzeiros utilizando as nozes de coco (bindi).

A fragilidade da produção agrícola não proporcionava quaisquer lucros o que obrigou esta sociedade em formação a “inventar” uma produção capaz de tornar rendíveis os investimentos realizados: desde o século XVI a “produção” de escravos destinados, em particular, às Américas e, mais tarde, exportados também para outras regiões africanas – como é o caso de São Tomé no século XIX sob a forma de “contratados” – caracteriza a economia do arquipélago.

Esta estrutura socioeconómica produtora de escravos não podia deixar de marcar os lugares,  multiplicar os objectos, registar as memórias: a toponímia, as técnicas – como aquelas que permitiram o desenvolvimento da panaria de Cabo Verde -, as plantas, os jogos, as festas ou as formas musicais contêm marcas culturais africanas; fortes, igrejas, portos, navios naufragados, construções diversas sublinham a natureza esclavagista que caracteriza a história das ilhas de Cabo Verde.

De entre todas as ilhas do arquipélago, Santiago é, por certo, a que mantém a memória africana mais forte, ligada à escravatura e ao tráfico negreiro.

O pelourinho da Cidade Velha, antiga Ribeira Grande, é o símbolo mais visível deste passado violento. Porém, a cidade possui outros lugares de memória da escravatura: o porto é uma verdadeira jazida de navios naufragados, onde se encontram, ainda hoje, objectos e vestígios de mercadorias ligados ao tráfico negreiro.

Quanto aos escravos puderam preservar a sua memória e a sua identidade através da toponímia: termos originários de diferentes línguas africanas (mandinga, wolof, etc…) atravessaram os séculos continuando a designar lugares, habitações, aldeias fortificadas, objectos domésticos de uso quotidiano, gestos e formas familiares, canções, festas, instrumentos musicais, jogos, rituais religiosos. Deste modo, os escravos africanos recuperaram o espaço dos colonos, dos comerciantes negreiros, dos seus proprietários europeus.

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