O Cemitério de Escravos de Lagos

Em 2009, durante as escavações para a construção de um parque de estacionamento, no Parque do Anel Verde, junto ao lado exterior da muralha de Lagos, designada “Cerca Nova” e datada dos séculos XVI e XVII, no lugar conhecido como “ Vale da Gafaria”, a equipe de arqueólogos em serviço encontrou dois grupos de ossadas em dois espaços diferentes, o maior – uma lixeira urbana natural – contendo cerca de uma centena e meia de esqueletos, a maioria sepultados (lançados) fora de quaisquer regras de inumação e uma variedade de objectos (moedas, cerâmica, adornos, …), restos ósseos de animais e detritos domésticos.

amendoeiras em flor no parque da cidade

Cerca Nova de Lagos. Denominado Vale de Gafaria, antes da intervenção urbana destinada a construir um parque de estacionamento automóvel em silo.

Os arqueólogos identificaram o pequeno grupo como sendo de leprosos ligados à gafaria ali construída em finais de Quatrocentos, de que restam algumas ruínas. O outro grupo, de 155 esqueletos de homens, mulheres e crianças, foi identificado como pertencendo a populações africanas. Estudos e sobretudo análises posteriores permitiram situar, os mais antigos esqueletos encontrados, num período entre 1430 e 1490, os mais recentes datando do século XVII. Se a datação quatrocentista coincide com as indicações fornecidas por Gomes Eanes de Zurara na sua Crónica dos Feitos de Guiné (1453), onde o autor descreve a chegada e primeira partilha de escravos africanos em Portugal, na cidade de Lagos (Agosto de 1444), as datas seiscentistas remetem para o fim da utilização da lixeira como local de ‘sepultura’.

A raridade do achado conduziu à assinatura de um protocolo de colaboração entre a Câmara Municipal de Lagos e o Comité Português do Projeto UNESCO A Rota do Escravo, com vista à criação de um Museu da Escravatura e à salvaguarda e memorialização do sítio. Nesse protocolo, previa-se que, no local hoje ajardinado, ficasse sinalizado o achamento através de um Memorial e de uma estrutura que permitisse dar a conhecer a realidade ali encontrada.

2-valegafaria

Trabalhos de terraplanangem no Vale da Gafaria. São visíveis alguns restos arqueológico.

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Iniciada a Escavação são encontrados vestígios arqueológicos e ossadas humanas.

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Pormenor da série estratigráfica. Ao fundo ossadas humanas

5-corteestratigrafico

Séria Estratigráfica onde é visível a presença de ossadas.

4-escavacaocemiterio

trabalhos arqueológicos revelam ruínas romanas e vestígios da antiga Gafaria.

Trata-se de um achado único na Europa, de um importante registo material do fenómeno histórico da escravatura e do tráfico negreiro europeu, que levou à exportação violenta de cerca de 12 milhões de seres humanos da África para as Américas, estabelecendo durante cerca de quatro séculos uma relação trágica entre os três continentes. É ( era, pois foi destruído) o mais antigo ‘ cemitério’ de escravos africanos conhecido no mundo.

6-esqueleto

Ossadas. É visível o depósito por lançamento, contrário às práticas religiosas da época

7-esqueleto

Ossadas. São visíveis as mãos imobilizadas atrás das costas.

8-esqueleto

Ossadas. Cadáver de Mãe com recém nascido entre braços

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O silo automóvel. após a construção é instalado um campo de mini-golfe. Não é referenciada a presença do cemitério de escravos.

Um pensamento sobre “O Cemitério de Escravos de Lagos

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