Aby Warburg e os Arquivos da Memória – o Projeto Mnemosyne

Há um projeto antigo, da FCSH chamado Arquivo da Memória que se trata duma interessente experiencia de participação, recolhendo história de vidas e lugares. E quase um Museu Digital.

Curiosamente “Arquivos de Memória” é também um outro proejto da mesma faculdade, que trabalha a questão da antropologia e a da imagem. Várias séries foram editadas desde 2001.

Contudo, o projeto mais antigo, e que agora nos interessa é o caso de  Aby Warburg e os Arquivos da Memória

Aby Warburg nasce em 1866, em Hamburgo, e morre em 1929, no seio duma abstada família judaica. A sua fortuna permitio-lhe manter uma vida filantrópica.

A sua relevância para o noso projeto vem relatado no projeto “Enciclopédia e Hipertexo” apresentado por António Carneiro

Diz o autor sobre Aby Wrtgurg

A tese que apresentou em 1891, em Estrasburgo, sobre O Nascimento de Vénus e A Primavera, de Botticelli, é o início de um trabalho de investigação de décadas que tem como objecto o tema do Renascimento e a sobrevivência (Nachleben) da Antiguidade. Mas, logo aí Warburg começa a dar-se conta dos limites de uma história de arte “esteticizante” e “formal”, tal como ela resulta de uma abordagem meramente erudita da história dos estilos e da avaliação estética. Fazendo da “imagem” o verdadeiro centro nevrálgico da sua investigação, Warburg tentou compreender o modo como ela é  dotada de uma enorme permeabilidade às sedimentações históricas e antropológicas e, portanto, inserida num processo de transmissão da cultura, facto que se mostra cheio de implicações na própria arte viva. Trata-se, assim, de conceber uma complexa temporalidade das imagens (à maneira de Benjamin, ele “escova a história a contra-pêlo”), em que estas, não se reduzindo a um simples documento da história, aparecem dotadas de uma “vida póstuma” e mostram como é possível estabelecer uma ligação entre épocas que a historiografia nos habituou a considerar como completamente diferentes. No estudo importantíssimo que fez dos frescos do Palácio Schifanoia, de Ferrara, Warburg mostrou precisamente que há uma ligação entre a Antiguidade, a Idade Média e a época Moderna.

A partir desta antropologia histórica das imagens que põe em acção um complexo interdisciplinar, uma “ciência sem nome” que aspira a um ideal de unidade da ciência, Warburg aproxima-se progressivamente de uma “ciência universal da cultura” que fornece provas decisivas das “ideias universais”. Assim, a cultura seria um processo de “sobrevivência” (de Nachleben), isto é, de transmissão, recepção e polarização.

É nesta perspectiva que podem ser compreendidos os dois grandes projectos daquele que Walter Benjamin definiu como um “espírito nobre e notável”, representante de “um tipo de erudito senhorial, esplendidamente inaugurado por Leibniz”: a Biblioteca que tem o seu nome (Kulturwissenschaftliche Bibliothek Warburg – KWB), e o Atlas de imagens, o Bilderatlas, a que deu o título Mnemosyne, palavra grega que também tinha sido colocada, numa placa, à entrada da Biblioteca (o que mostra a íntima relação entre ambos). Tanto ou ainda mais do que os seus escritos (cuja edição, ainda em curso, se tem revelado um processo complicado e cheio de sobressaltos), estes dois projectos constituem uma herança fundamental deixada por Aby Warburg, em termos de conhecimento e de metodologia.

Para a sua Biblioteca, Warburg começou a coleccionar livros quando tinha cerca de vinte anos, mas ela só foi fundada em 1902. Foi sobretudo a partir dos primeiros anos do século XX que ela começou a enriquecer-se de maneira sistemática e a ganhar a configuração de uma biblioteca particular que, no entanto, já começava a ser pensada para ter um uso público. Quando, em 1918, Warburg tem de ser internado numa clínica por causa de uma doença mental, é Fritz Saxl quem fica a dirigi-la e a organizar nela conferências interdisciplinares que, na época, têm um papel importantíssimo. Isto mostra como a Biblioteca Warburg tinha adquirido a capacidade de se autonomizar do seu criador. É à sombra desta biblioteca, e dos métodos de Warburg, que nomes tão importantes como Ernst Cassirer e Panofsky, entre outros, desenvolverão uma parte muito importante da sua investigação. Em 1933, a Biblioteca, composta de sessenta mil livros e de um enormíssimo arquivo de imagens, é transferida para Londres, em dois barcos, justamente a tempo de ser salva da fúria nazi. Mais tarde integrada na Universidade de Londres, esta Biblioteca é o núcleo fundador do importante Instituto Warburg.

Concebida, na sua variedade interdisciplinar, como uma biblioteca de estudos e investigação, a KBW  obedecia a um complexo sistema de ordenação que, em si, servia desde logo o programa de Warburg de constituir uma rede de enunciados universais. De facto, Warburg classificava os livros, não segundo a ordem alfabética ou aritmética, mas segundo os seus próprios interesses e o seu sistema de pensamento. Aquilo a que ele chamava a lei da “boa vizinhança” era o princípio que estava na base da sua Biblioteca: partir em busca de um livro deveria sempre conduzir a um outro que estava ao lado, que se revelaria mais importante do que aquele que tinha sido o objecto inicial da busca. Na descrição de Ernst Cassirer, esta Biblioteca era um verdadeiro labirinto que podia provocar algumas perturbações aos visitantes.

Quanto ao Atlas de imagens, Mnemosyne, em que Warburg trabalhou nos últimos anos da sua vida, tendo-o apresentado pela primeira vez na Biblioteca Hertziana, em Roma, a 19 de Janeiro de 1929, trata-se de um projecto que ficou incompleto. Quando morreu, em Outubro de 1929, Aby Warburg tinha formado quarenta painéis com mais de mil fotografias, cuja função consistia em identificar quais eram as cadeias da tradição que operam no interior da linguagem ocidental das imagens. O Bilderatlas destinava-se, portanto, a  reconstruir aquele fundo que Warburg tinha pensado.

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