o Bairro do Mocambo

Pormenor da Estampa de Lisboa no século XVI de Giogio Braunio que põe em evidência o Bairro Alto, a igreja das Chagas e a colina que se estende até ao rio, com hortas e pequenas habitações. À esquerda, vê-se a igreja e a freguesia de Santa Catarina, construída em finais do século XV, sobre a colina do mesmo nome, que dominava o Tejo e o movimento naval, atraindo para o local ricos oficiais das carreiras de África e da Índia, que aí fixaram morada,  no século XVI. (MC –CML)

Palácios, igrejas, mosteiros e conventos, mas também quintais e hortas e estruturas produtivas da cidade – atafonas e fornos, olarias e pedreiras – e ainda as estalagens para acolher os viajantes, as tabernas e as casas das “mulheres públicas”, algumas geridas por mulheres “pretas forras”, como “ Violante Fernandes, preta da Mina que possui casas próprias” constituem a trama urbana desta zona de Lisboa, onde desde os finais do século XV se foram cruzando continuamente muitas gentes e muitas culturas. É desta época a construção do Bairro Alto para acolher as diferentes populações ligadas às actividades comerciais que se instalavam na cidade. As ruas e as ruelas do Bairro, que ainda hoje permanecem no emaranhado do passado, como a rua do Norte , a Rua da Rosa, a Rua das Gáveas onde “ Bárbara Fernandes, mulher preta [vivia e alugava] em casas suas, avaliadas em 20000 réis”, ou a rua da Atalaia, eram já, no século XVI, lugares de trocas de toda a natureza, de muitas profissões e actividades, onde se estabeleciam  carpinteiros, pedreiros, lavadeiras, pretos, brancos e mestiços.

Zona de intensa actividade económica e comercial, o Bairro Alto, o Largo de Camões e o vizinho Chiado eram também lugares de vida social e religiosa, onde não faltavam os africanos. As igrejas desempenhavam um papel central nas muitas festividades religiosas, que por aqui se realizavam, marcadas pela música, pela dança e pela festa introduzidas pelos africanos.

A igreja dos Mártires foi durante muito tempo um dos lugares mais marcantes da festa do Corpo de Cristo, a mais importante cerimónia religiosa portuguesa. Desta Igreja saía a procissão do Corpo de Cristo para a Sé Patriarcal, fazendo um percurso pela Baixa de Lisboa, que variou ao longo dos tempos. Em 1908, um artigo publicado no Diário de Notícias dá conta da longa duração deste fenómeno popular, lúdico-religioso, que adquiriu uma importância singular na vida portuguesa, registando a realização da “procissão do Corpo de Deus na Sé Patriarcal, a que, desde há séculos, anda ligado o tradicional cortejo de S. Jorge. [Se] a procissão não passa hoje do Largo da Sé, o cortejo de S. Jorge (…) conserva porém as coisas mais tradicionais, sobressaindo entre todas elas os cinco pretinhos que com os seus fatos garridos e espaventosos executam durante o trajecto nas suas charamelas, aquele “Tá, tará, tá, tá…tá, tá…” que todo o alfacinha aprende de cor desde criança”.

A Igreja dos Mártires e os Pretos de São Jorge. No século XIX, dando continuidade a uma longa tradição secular, os africanos continuavam a ser considerados como particularmente dotados para a música. Esta orquestra dos cinco músicos negros de São Jorge, talhados em madeira, associa os instrumentos de sopro aos de rufo: duas trombetas, uma flauta e dois tambores, salientando-se a exuberância cromática do vestuário assim como o florão azul e branco – cores nacionais de então – dos bicórnios dos músicos. Mas, além de músicos, estas figuras africanas pertencem ao espaço religioso, histórico, simbólico português, pois constituem peças fundamentais da Procissão do Corpo de Cristo, a mais importante festividade religiosa católica, que tinha adquirido uma importância nacional em finais do século XV, obrigando à participação de todas as Confrarias [MC-CML]

Largo de Camões e Chiado.

As Igrejas do Loreto, da Encarnação, das Chagas são apenas três dos muitos lugares religiosos que dominam esta zona da cidade onde o Largo de Camões funciona como o espaço que organiza a ligação do Chiado ao Bairro Alto e  à Lisboa ocidental..[Fotografias: Ana Fantasia]

Bairro Alto e Calçada do Combro, descendo para Santa Catarina.

Igreja de Santa Catarina e Retablete de Nossa Senhora do Rosário. De autor desconhecido, datada dos finais do século XVI, inícios do século XVII, esta pintura representa um casal de africanos – muito provavelmente casados segundo os rituais católicos – a orar à Santa, vestidos, tendo a mulher a cabeça tapada, como foi corrente em Portugal até ao século XIX. Se o casamento era um fortíssimo marcador social e religioso – na relação divina com os antepassados – das sociedades africanas, o matrimónio católico, adoptado por muitos africanos, permitia-lhes adquirir não só um estatuto reconhecido pelos portugueses, mas também um espaço sagrado onde a manipulação do divino através dos rituais religiosos, lhes garantia uma constante ligação aos seus cultos ancestrais[ Igreja de Santa Catarina. Fotografia: Júlio Marques].

Se a Igreja de Santa Catarina é um marco religioso e social importante da cidade, é também um lugar de referência na história dos escravos, em Lisboa. Passando a igreja, em direcção à Porta da cidade, para oeste, encontrava-se logo a Cruz de Pau, o sítio dos castigos infligidos aos escravos. Aí começa hoje a Rua do Poço dos Negros e se situa a Travessa do mesmo nome, local onde em 1515 D. Manuel I mandou construir o «Poço dos Negros» para que aí fossem lançados os «escravos que falecem nessa cidade […] e que a maior parte se lançam no monturo que está junto à Cruz [de Pau]» ficando «descobertos […] e que os cães os comem», o rei dando indicações precisas sobre a maneira de fazer para “combater os miasmas pútridos”.É pois possível compreender que se começasse a desenhar um espaço destinado aos africanos, cada vez mais numerosos, situado nessa zona fora de Lisboa, mas na sua proximidade.

A Cruz de Pau situava-se no pequeno Largo que assegura a ligação entre as duas ruas cruzadas pelo eléctricos de hoje. À esquerda, fica a Rua do Poço dos Negros, de onde sai, à direita, a Travessa , onde existiu o Poço dos Negros que dá o nome à zona.[Fotografias: Ana Fantasia.]

O Mocambo e as suas gentes

Pormenor da Grande Vista de Lisboa. Neste fragmento do silar pode ver-se como o Mocambo se integrava na rede das ruas, largos, becos e caminhos, assinalados também pelas colunas de fumo das olarias ali teriam funcionado. Sublinhe-se a situação do bairro, dentro e fora da cidade, bem como a proximidade de um grande número de comunidades religiosas – extintas em 1834 -, como as de Nossa Senhora da Soledade ou das Trinas, de Santa Brígida, de São Bento, da Estrela, das Bernardas (na fotografia, em baixo), de Nossa Senhora da Esperança.[ MNAz. Fotografia: IMC-DDF/ Carlos Monteiro].

Criado por alvará régio de 1593, seguido de outro de 1605, o bairro do Mocambo era “ o segundo dos seis bairros em que Lisboa estava organizada, compreendendo então as freguesias de Santos-o-Velho, Santa Catarina, S. Paulo, N. Sª. do Loreto e Chagas”. Mais tarde, outro alvará régio datado de 25 de Março de 1742 assinala os “doze bairros” que organizam a cidade de Lisboa, sendo o décimo segundo designado “Bairro do Mocambo “e compreendendo as “freguezias de Santos e de Nossa Senhora da Ajuda, com os logares de Alcântara e de Belém” e os “julgados de Barcarena, Algés e Oeiras”.

Trata-se de uma designação singular e inédita de um bairro – cremos que único na Europa – que recorre a um termo de raiz africana para o assinalar. Mocambo, que em umbundo significa ´pequena aldeia, lugar de refúgio’, como aliás o termo sinónimo quilombo, na língua quimbundo, pertencem à esfera das línguas de Angola.

Se o substantivo assenta na ideia da existência dos negros fugidos, que se instalam no mato, isto é, em território não controlado pelos proprietários, construindo aí as suas habitações e adquirindo a liberdade, o Mocambo de Lisboa que, segundo Raphael Bluteau (1716), era “antigamente […] sítio de uma quantidade de casinhas de pescadores e negros”, como aquelas a que “no Brasil chamam …aldeias de uns negros repartidas em choupanas, [chamadas] mocambos”, integrava oficialmente a cidade, a designação pondo em evidência o aumento significativo da população africana na capital e a necessidade de criar um espaço para a sua instalação.

Situado nos arrabaldes de Lisboa, o bairro do Mocambo deve ser considerado como uma organização simultaneamente criada pelos africanos, sobretudo livres ou forros, e pelas autoridades portuguesas – ou castelhanas – que a aprovaram, pois permitia ela descongestionar a cidade. As populações africanas procuraram aí encontrar uma habitação autónoma – sem que conheçamos com rigor a propriedade e a arquitectura do espaço -, que podia acolher escravos, à revelia das normas legais,  permitindo-lhes uma vivência marcada por algumas práticas culturais africanas, em particular os rituais, religiosos ou sociais (nascimento, casamento, morte, parentesco) que podiam preservar e respeitar, longe do olhar crítico e redutor dos portugueses.

O estudo das muitas fontes escritas portuguesas ou estrangeiras, de algumas obras plásticas ou de outros documentos iconográficos mostra o vai-e-vem desses homens e mulheres africanos, escravos e livres, que trabalhavam na esfera doméstica   das famílias portuguesas ou na cidade, desempenhando as mais diversas tarefas urbanas. Sublinhem-se as tarefas essenciais à higiene e manutenção dos espaços públicos – varredores, caiadores, calhandreiras, distribuidoras de água -, mas também o aprovisionamento de bens aos lisboetas, tarefa sobretudo feminina: o comércio de rua e de porta fornecia bens alimentares, produtos agrícolas, bens de consumo como o carvão e o pescado, vendido por regateiras, brancas, pretas, mulatas, que corriam Lisboa de ponta a ponta. Às actividades masculinas ligadas ao mar, da marinharia à construção naval e à pesca devem acrescentar-se os muitos outros ofícios que eram desempenhados pelos africanos, como os fornos de ferraria, instalados na cidade e arredores, as olarias situadas na periferia do bairro do Mocambo, mas também os trabalhos do ferro, do couro, da madeira, da tecelagem e mil outras tarefas que a vida urbana exigia.

Muitos são os documentos iconográficos que dão conta da realidade africana no trabalho. Gravuras, pinturas, azulejos, cerâmicas relatam essa actividade. [Estampas: MC-CML; Azulejos: FCFA. Fotografia: Júlio Marques; MNAz. Fotografias Pedro Leite ].

A partir do século XVII, o Mocambo assistiu à instalação progressiva de população portuguesa ligada às actividades do mar. Pouco a pouco, os africanos foram abandonando esse espaço urbano, sobretudo após as medidas pombalinas que decretaram a proibição da importação de escravos (1761) e a abolição da escravatura em Portugal (1773). O desenvolvimento urbano do Mocambo segue-se ao terramoto de 1755, como resultado da destruição das zonas baixas da cidade: os africanos que permaneceram forneciam a mão-de-obra barata para o trabalho fabril decorrente da multiplicação de fábricas na periferia norte e noroeste da cidade, até desaparecerem e com eles a designação do bairro.

Sublinhe-se, no entanto, que o bairro deve ter mantido alguma importância na memória dos africanos, pelo menos daqueles que se reconheciam como oriundos de Angola e do Congo, pois que, por volta de 1880, “a casa [onde] se alojou a Rainha “do Congo, D. Amália I, com a sua comitiva, quando se deslocou a Portugal para conhecer e prestar vassalagem ao seu senhor e soberano, o Rei de Portugal”, situava-se precisamente na Travessa do Outeiro, à Rua da Bela Vista à Lapa….”, onde decorriam festas africanas anunciadas e rotuladas de «assombrosas»  nos periódicos lisboetas. [ O António Maria, 1882 HM- CML]

De bairro a travessa, de Mocambo a Madragoa

Se referências seiscentistas ao estatuto social do bairro permitem avaliar esse processo de mudança, dando conta da sua desvalorização  – passando “de um dos melhores lugares dos subúrbios de Lisboa” a lugar  referido pela sua “ sujidade” e pelo aparecimento de ” epidemias”, em meados de Oitocentos ( Júlio Castilho) -, a cartografia lisboeta mostra a evolução do bairro do Mocambo, a sua redução a travessa e a sua transformação  num bairro popular da Lisboa actual , que guarda a ligação ao mar nas memórias e nas práticas festivas.

Vista e Perspectiva da Barra da Costa e Cidade de Lisboa, da autoria de Bernardo de Caula, representa Lisboa em 1763. Trata-se de um desenho à pena e aguadas de tinta sépia e cinza em duas folhas coladas, que “estende” a cidade da Torre do Bugio até ao Palácio do Patriarca (Palácio da Mitra). Ao identificar, com correspondência numérica, 105 topónimos, a carta permite uma leitura de Lisboa muito pormenorizada: saliente-se a legenda nº. 58, que designa “As Tercenas Bº do Mocambo”. [BNP]

A situação social do Bairro modificar-se-ia de novo em meados do século XIX, a alteração das designações toponímicas sendo um reflexo significativo dessa transformação. Os documentos cartográficos de que dispomos dão conta da desaparição do bairro e da existência de uma “Travessa do Mocambo”, dando lugar – provavelmente na segunda metade do século XIX – à actual Rua das Trinas, local do velho convento seiscentista “das Trinas ou de Nossa Senhora da Soledade do Mocambo”. Nesse período já o bairro seria a Madragoa, designação cuja história é ambígua: derivada de “Madre de Goa “, designação do Convento local das Madres de Goa, ou  de “ Mandragam”, nome de uma aristocrata madeirense que ali teria casa.

Mapa de Lisboa Oitocentista e pormenor da rua do Mocambo. Mapa de origem alemã, datado de 1844, que segue a matriz de uma carta inglesa de 1833. O pormenor desta carta topográfica permite a visão plena da Travessa do Mocambo, integrada no espaço das Trinas, que regista a passagem do Mocambo de bairro a travessa, pondo em evidência a perda da sua importância urbana.[ Gravura de Joseph Meyer. David Rumsey Map Collection, EUA].

Registe-se o facto de, entre 1911 e 1924, segundo Norberto de Araújo, esta “«Rua  das Trinas: Mocambo velho» ter sido denominada Rua Sara de Matos, até 1937”, data em que “se repôs na artéria a designação original”, Rua das Trinas, que assinala a história e a memória religiosa do lugar, mantendo no esquecimento a designação africana de um passado secular e a natureza inédita do bairro do Mocambo, “ um dos bairros mais frequentados e populosos da Capital” (Júlio Castilho, 1893).

Convento das Trinas, que foi no século passado o Instituto Hidrográfico Nacional

Palácio de Santos-o-Velho hoje Embaixada de França.

Fotografias actuais da Madragoa, bairro popular ligado ao mar, dos Conventos e dos Palácios de Santos-o-Velho – alguns dos quais são hoje instituições do Estado ou  embaixada s-,  e de muitos outros lugares onde se cruza uma complexa história social da cidade de Lisboa.

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