Mitos e lendas nas pontas dos dedos

Contar uma história é fácil: é só começar a falar e ter alguém para ouvir. Mas desenhar uma fábula inteira com uma única linha era uma novidade para mim (e que novidade!). Sim, isso é possível.

Na região central da África, onde hoje é o nordeste de Angola, sul da República Democrática do Congo e oeste do Zâmbia, vivem os tchokwe (ou quiocos, em português angolano), descendentes do antigo Império Lunda, povo portador dos curiosos sona (plural de lusona), uma verdadeira “dança” entre boca, olhos e mãos; narração e desenho; feitos no chão pelos “akwa kuta sona” (os “conhecedores dos desenhos”, os contadores-desenhistas) apenas com a ponta dos dedos, depois de anos de aprendizado para memorizar, contar e desenhar centenas de sona diferentes.

O processo começa com a limpeza do chão onde será desenhado o lusona. Em seguida, o contador marca pontos (“tobe”) grandes, pequenos ou ambos (dependendo do lusona) equidistantes com os dedos. Em seguida, o contador inicia uma linha (“mufunda”; a maioria dos sona têm apenas uma linha) e a desenvolve ao redor dos pontos enquanto narra o conto, o qual termina no encontro com o ponto inicial da linha. Está feito o lusona.

Cada lusona tem está relacionado a uma fábula e cada fábula tem uma moral. Assim, o lusona representa visualmente um valor moral, ético, ou religioso aos membros do povo tchokwe: amor, amizade, gratidão, solidariedade…. A tradição sona é multifacetada. Envolve aspectos filosóficos, educacionais, artísticos, ideográficos e recreacionais, além subsidiar o ensino de conceitos matemáticos nas escolas do interior angolano, como a geometria plana e espacial.

Abaixo, uma representação de um dos meus sona favoritos: “O Direito Inviolável dos Mais Fracos” ou “Mina de Sal-Gema”:

“Sambálu, o senhor coelho (posicionado no ponto b), descobriu nzôngua riá môngua, uma mina de sal-gema (no ponto a). Imediatamente, o leão (no ponto c), a tchisenga (onça, no ponto d) e a tchimbúngu (hiena, no ponto e) vieram exigir a sua posse e afirmar o seu direito de mais fortes. Então o coelho teve a ideia que logo realizou: fazer uma vedação e isolar a mina de todos os usurpadores.”

Note-se que apenas o ponto b, o coelho, tem acesso direto ao ponto b, a mina de sal.

Eis um lusona.  Abaixo ,link para download do Livro: “Lusona Recreações Geométricas de África” de Paulus Gerdes

GERDES, Paulus. Geometria Sona de Angola: Matemática de Uma Tradição Africana. Boane,Moçambique: ISTEG, 2012.

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