MINOM- Arronches “30 anos do MINOM” Mário Moutinho

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http://www.minom-portugal.org/arronches.html

Arronches 9-10 de Outubro de 2015

Vivemos tempos de empobrecimento que tocam em quase todos os setores da nossa sociedade:
1 - Empobrecimento de valores que pouco a pouco são substituídos por falsas inevitabilidades, por racionalidades tão mal construídas como fundamentadas, e que apenas confundem a forma com o conteúdo.
2 -  Empobrecimento do valor do trabalho onde todos somos agora peças descartáveis. Porque outras formas de criação de riqueza que ontem eram espúrias, hoje são um DEVER no quadro das regras do neoliberalismo, explicadas como princípios que obviamente não são passíveis sequer de dúvida.
E é destes princípios que se constrói o discurso dos meios de comunicação social, e se manifesta consequentemente no comportamento de cada um,no seu trabalho, na família e nas relações sociais em geral. 
E são esses princípios que cada vez mais são a principal fonte da literacia política dos eleitores e dos futuros eleitores. Ou melhor, da iliteracia política, arredada do direito ao pensamento.
3 -Empobrecimento por termos cada dia que passa menosjovens a viver no País, empurrados para uma nova vaga de emigração que já não se via desde os anos 60.
E se nesses tempos isso era fruto das políticas do Estado Novo que sonhavam com uma nação rica mas de gente pobre e acomodada, da exaltação da pobreza e das múltiplas segregações sociais, hoje é igualmente fruto no essencial da mesma conceção que somos um País de cofres cheios e de gente que está do lado errado da História.
Um país onde gente iluminada, deslumbrada e ignorante,  assumiu o poder de por e dispor do País e das instituições, ainda mal acabadas de criar desde o 25 de Abril, e que agora, estão pervertidas ao serviço de interesses que não são certamente aqueles que assentam na dignidade humana.
4 -Empobrecimento pela falta de transparência em quase todos os aspetos da vida pública do país, que não estando ao serviço da sociedade no seu todo é determinada por agendas paralelas que no final das contas determinam e condicionam as políticas públicas, ao mesmo tempo que desorientam as pessoas e abrem as portas para os discursos fáceis, de todas as Marine Le Pen, de lá e de cá.
Mas é neste tempo que temos de viver.
E se a consciência desse empobrecimento é necessária para vivermos no nosso tempo, é também necessária para repensarmos o lugar que pretendemos ocupar, tanto quanto o lugar para onde nos pretendemos encaminhar.
De certa forma podemos dizer que nos últimos tempos se instalou uma atitude de múltiplas formas de retração resultante desse mesmo empobrecimento.
E neste contexto que fará sentido olharmos para os 30 anos de acção do MINOM em prol de um mundo mais fraterno.
Estes 30 anos traduzem a diferença entre uma sociedade que não era regida pelos princípios do neoliberalismo para uma sociedade das inevitabilidades e das austeridades.
Há 30 anos, quando as aspirações de uma nova museologia tomavam forma fazia todo o sentido afirmar na Declaração do Quebec :
Este novo movimento põe-se decididamente ao serviço da imaginação criativa, do realismo construtivo e dos princípios humanitários defendidos pela comunidade internacional. Toma-se de certa forma um dos meios possíveis de aproximação entre os povos, do seu conhecimento próprio e mútuo, do seu desenvolvimento cíclico e do seu desejo de criação fraterna de um mundo respeitador da sua riqueza intrínseca. Neste sentido, este movimento, que deseja manifestar-se de uma forma global, tem preocupações de ordem científica, cultural, social e económica. Este movimento utiliza, entre outros, todos os recursos da museologia (colecta, conservação, investigação científica, restituição o difusão, criação), que transforma em instrumentos adaptados a cada meio e projectos específicos.
Foi este caminho que se fez caminhando, confrontando nova com velha museologia, onde a luta de classes se manifestou com grande vigor, favorecendo iniciativas portadoras de mudança , destruindo esperanças e provocando renúncias, seleccionando as pessoas e os postos de trabalho, pela afiliação ou não, às referencias culturais de cada um e de cada uma.
Mas foram também tempos de rico e profundo debate onde com base nas práticas museológicas que davam forma a diferentes modelos de nova museologia (ecomuseus, museus de território, museus locais e de vizinhança) se passou a estabelecer uma nova compreensão que abriu as portas à Sociomuseologia.
Uma Sociomuseologia que se reconhece como sendo uma parte considerável do esforço de adequação das estruturas museológicas aos condicionalismos da sociedade contemporânea, muito para lá da construção de um diálogo da museologia profissional apenas feita por e para museólogos.
Com uma diferença significativa que resulta do fato da teoria museológica ter sido ao longo do tempo uma área do conhecimento essencialmente centrada sobre a instituição museu. Teoria pouco atenta ao meio social que caracterizava o seu contexto e, por consequência a sua prática, quase sempre ser reduzida às práticas da instituição museu com o seu público.
E, esta Sociomuseologia, mais abrangente, partilhando raízes com a Sociologia Publica acabaria de levar a museologia entendida como era até então como uma técnica, para um novo lugar no seio das ciências sociais nas quais a dialéctica se estabelece entre as formas de fazer e a compreensão daquilo que foi a sua prática, nos seus contextos, nas suas contradições.
Mas nos tempos que correm de empobrecimento, temos de constatar que existe uma retracção, uma secundarização da dimensão social das coisas, um desinvestimento na cultura em geral e na Museologia em particular. A Museologia que dantes era vista como fator de desenvolvimento, cada vez mais se reduz à expressão mínima, ou seja da manutenção de pequenas e moribundas exposições, sem recursos financeiros e humanos. São os novos museus do marketing político, das autarquias ou do poder central como ficou expresso na Declaração de Moura.
É crescente a “instrumentalização de museus para a reprodução de poderes instituídos, exercida em versões simplistas de “marketing político. As áreas culturais e a museologia em particular estão sendo condicionadas negativamente por tutelas que são contraditórias entre o discurso e a sua prática. A museologia desenvolvida em Portugal com a tutela dos municípios, a que está mais próxima do maior número de pessoas, tem vindo a revelar-se, de forma crescente, irrelevante para as populações e para o aprofundamento da democracia.
Mas como o fim da história está ainda por vir, mais uma vez a UNESCO vem dar o seu contributo á compreensão dos tempos que correm, e neste sentido tudo indica em novembro por ocasião da 38ª conferencia Geral da UNESCO 3-18 novembro de 2015, vai aprovar um documento da maior relevância para a museologia e consequentemente para a sociedade no seu todo.
Os Estados-Membros devem reconhecer que os museus podem ser os agentes económicos na sociedade e contribuir para actividades geradoras de renda.
Mais geralmente, eles também podem melhorar a inclusão social de populações vulneráveis.
Os Estados-Membros devem reconhecer que as funções primárias, enquanto de extrema importância para a sociedade, não pode ser expresso em termos puramente financeiros.
Os Estados-Membros são incentivados a apoiar o papel social dos museus que foi destacado pelo 1972 Declaração de Santiago do Chile. (documento inspirador do próprio MINOM) Museus são cada vez mais vistos em todos os países como desempenhando um papel fundamental na sociedade e como factor de integração e de coesão social. Neste sentido, eles podem ajudar as comunidades para enfrentar as mudanças profundas na sociedade, incluindo aqueles que conduz a um aumento da desigualdade e da ruptura dos laços sociais.
Eles podem constituir espaços de reflexão e debate sobre questões históricas, sociais, culturais e científicos. Museus também deve fomentar o respeito pelos direitos humanos e igualdade de gênero. Os Estados-Membros devem incentivar os museus de cumprir todos estes papéis.[1]
Afinal tudo aquilo que a Nova Museologia e a Museologia Social, a Sociomuseologia tanto pugnaram nestes 30 anos é agora plasmado num documento da UNESCO.
Afinal sempre fazia sentido pretender que os museus deveriam envolver-se com as questões de desenvolvimento, de inclusão social e de integração, de mudanças sociais. espaços de reflexão e debate sobre questões históricas, sociais, culturais e científicos. Museus também deve fomentar o respeito pelos direitos humanos e igualdade de gênero.
Foram 30 anos que tornaram possível entender a museologia como uma manifestação de uma progressiva tomada de consciência da dimensão social da Museologia, do seu lugar como portadora de inclusão social, da sua responsabilidade social face aos desafios da Humanidade.
Foram anos de afirmação de uma museologia de língua portuguesa inovadora, responsável e digna.
  • Afirmação que constatamos no vasto processo de renovação museal no Brasil assente na Politica Nacional de Museus, cujos contornos receberam o contributo muito relevante de membros do MINOM do Brasil e de Portugal.
  • Afirmação na criação de cursos de nível superior onde a museologia não é apenas uma técnica mas onde se reconhe pelo menos a complexidade das questões praticas e teóricas que caracterizam a sua realidade contemporânea
  • A afirmação de um número crescente de museus que se afirmam pela utilização simultânea de diferentes conceitos, tornando-se assim numa nova categoria que poderíamos denominar de Museus Complexos. Complexos não pela complexidade do funcionamento das instituições museológicas, mas complexos pela complexidades dos conceitos que sustentam as suas diversas atividades.
  • A afirmação de uma museologia local em Portugal que enfrenta o empobrecimento material, cultural e político do tempo em que vivemos, mas procurando sempre ultrapassar barreiras todas as barreiras que cada dia se levantam, procurando novas estratégia de resistência, assentes numa criatividade que precisa de ser reconstruida também a cada dia..
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